A fascite plantar é a causa mais comum de dor no calcanhar que atendo no consultório. O paciente chega reclamando de uma dor intensa logo ao acordar, que piora ao colocar o pé no chão para os primeiros passos.
Essa dor característica melhora um pouco com o aquecimento durante o dia, mas volta à noite ou após atividades que exigem impacto. É uma condição extremamente incapacitante que afeta cerca de 10% da população.
A fascite plantar é mais comum entre 40 e 60 anos e afeta igualmente homens e mulheres. No entanto, vejo casos em pessoas mais jovens, especialmente atletas e corredores. Mulheres que usam salto alto constantemente têm risco aumentado. O sobrepeso e o envelhecimento também contribuem para o desenvolvimento dessa inflamação.
O que é a fascite plantar
A fascite plantar é a inflamação da fáscia plantar, um tecido fibroso espesso que percorre toda a sola do pé, desde o calcanhar até os dedos. Essa estrutura funciona como uma mola, absorvendo o impacto durante a caminhada e mantendo o arco do pé. Quando esse tecido é sobrecarregado, desenvolve microlesões repetitivas que causam inflamação.
Na verdade, o termo fascite pode ser enganoso. Estudos modernos mostram que não se trata apenas de inflamação aguda, mas de um processo degenerativo crônico. O tecido da fáscia sofre microrupturas e degeneração das fibras de colágeno. Por isso, o tratamento deve focar em restaurar a saúde e a resistência do tecido, não apenas reduzir a inflamação.
As principais causas são o encurtamento da cadeia posterior da perna, uso de calçados inadequados, pés com arcos muito altos ou muito planos, sobrepeso, e aumento súbito de atividade física. Certos trabalhos que exigem ficar muito tempo em pé também favorecem o desenvolvimento da fascite.
Por que dói ao acordar
A dor ao acordar é uma característica marcante dessa condição. Durante a noite, enquanto dormimos, a fáscia fica contraída e “encurtada”. Ao acordarmos e colocarmos o pé no chão para caminhar, essa estrutura encurtada é subitamente esticada. Isso causa uma dor aguda e intensa que é o sintoma mais típico da fascite plantar.
Com alguns minutos de movimento, a fáscia aquece e alonga um pouco, melhorando a dor. No entanto, se a pessoa fica muito tempo parada durante o dia e volta a caminhar, a dor retorna. Atividades que exigem impacto, como corrida ou pular, também provocam dor, geralmente ocorrendo horas depois da atividade ou no dia seguinte.
Como faço o diagnóstico
O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na história típica e no exame físico. Palpo especificamente a região do calcâneo, procurando por um ponto de dor muito localizado na inserção da fáscia no osso. A dor ao alongar a fáscia (deixando a ponta do pé levantada) é muito característica.
Solicito radiografia do pé com carga para avaliar se há esporão de calcâneo associado. Apesar do nome popular, o esporão não é a causa principal da dor, mas uma consequência do desalinhamento biomecânico. O ultrassom é meu exame preferido para avaliar a espessura da fáscia e confirmar o diagnóstico.
O que a ciência diz
Uma meta-análise publicada em Balneol Med 2024 (Melese et al.) incluiu 11 estudos randomizados sobre tratamento com ondas de choque para fascite plantar. Os autores concluíram que a terapia por ondas de choque (ESWT) é eficaz e bem tolerada, com poucos efeitos colaterais. Melhorias significativas em dor e função foram observadas em até 70% dos pacientes.
Outro estudo publicado comparou ondas de choque com ultrassom terapêutico para fascite plantar. Ambas as técnicas foram eficazes, mas ondas de choque mostraram superioridade na redução da dor matinal, o sintoma mais incapacitante.
Opções de tratamento
Tratamento conservador
O primeiro passo é sempre conservador. Oriento alongamentos regulares da panturrilha e da fáscia plantar, realizados pelo menos 3 vezes ao dia. Uso de palmilhas com suporte do arco ajuda a distribuir melhor as forças e reduz a tensão na fáscia.
Sapatos adequados com bom amortecimento fazem diferença. Evitar salto muito alto ou muito plano é importante. Gelo local por 15 minutos após atividades, anti-inflamatórios orais e repouso relativo complementam o tratamento. Mais de 90% dos pacientes melhoram com essas medidas quando realizadas consistentemente por 6 a 12 semanas.
Terapia por ondas de choque
Quando o tratamento conservador não resolve em 3 meses, indico ondas de choque. Realizo o procedimento no consultório, sem necessidade de anestesia geral. São necessárias 3 a 5 sessões semanais. A taxa de sucesso varia de 60% a 80% conforme a literatura.
A terapia funciona estimulando a regeneração tecidual e aumentando o fluxo sanguíneo na região. Os resultados aparecem de forma gradual ao longo de 8 a 12 semanas após o término das sessões.
Quando a cirurgia está indicada
A cirurgia é reservada para menos de 10% dos casos que não melhoram após 6 meses de tratamento conservador bem conduzido. O procedimento consiste em relaxar a fáscia fazendo um pequeno corte na sua inserção no calcâneo, e geralmente associo alongamento do tendão de Aquiles.
A recuperação cirúrgica leva 4 a 6 semanas. Após esse período, fisioterapia intensiva é necessária. Porém, a maioria dos pacientes pode ser evitada com diagnóstico e tratamento precoces.
Prevenção
Manter a flexibilidade da panturrilha através de alongamentos regulares é a melhor prevenção. Usar sapatos com bom suporte e evitar calçados inadequados protege a fáscia. Controlar o peso corporal reduz a sobrecarga. Aumentar a atividade física de forma gradual, não brusca, também previne o surgimento da fascite.
Não conviva com a dor
A fascite plantar é uma condição comum e incapacitante que causa dor intensa ao acordar. O tratamento conservador com alongamentos, sapatos adequados e fisioterapia resolve a maioria dos casos. Ondas de choque são uma excelente opção para casos resistentes, com taxa de sucesso acima de 60%.
A cirurgia é raramente necessária quando o tratamento é iniciado precocemente. Por isso, ao primeiro sinal de dor no calcanhar, procure avaliação médica. E para agendar consulta comigo em São Paulo para diagnóstico e plano de tratamento, entre em contato pelo WhatsApp (11) 98799-3104.
