Tendinite do tendão de Aquiles: aquela dor atrás do calcanhar que não passa

Saúde dos tornozelos
tendinite do tendão de Aquiles

Tendinite do tendão de Aquiles: aquela dor atrás do calcanhar que não passa

A tendinite do tendão de Aquiles é uma das queixas mais frequentes entre corredores e praticantes de esportes de impacto que atendo. O paciente chega relatando dor na parte de trás do tornozelo que começou leve, piorou com o tempo e agora impede até atividades simples como subir escadas. Essa lesão por sobrecarga tem tratamento eficaz quando iniciado precocemente, mas pode evoluir para ruptura total se negligenciada.

Dados mostram que 70% das pessoas com tendinite de Aquiles são corredores ou praticantes de esportes que envolvem corrida e saltos. No entanto, pessoas sedentárias também desenvolvem o problema, especialmente após os 40 anos quando o tendão perde elasticidade natural. O tendão de Aquiles é o mais forte do corpo humano, suportando até 12 vezes o peso corporal, mas essa força não o torna imune a lesões.

Neste artigo explico o que é a tendinite de Aquiles, por que ela acontece, os dois tipos principais de lesão, como faço o diagnóstico e quais são os tratamentos disponíveis hoje. Falo também sobre quando a cirurgia realmente está indicada. Sigo sempre as diretrizes científicas atualizadas no tratamento dessa condição.

O que é a tendinite do tendão de Aquiles

O tendão de Aquiles conecta os músculos da panturrilha (gastrocnêmio e sóleo) ao osso do calcanhar (calcâneo). Sua função é fundamental: traciona o calcanhar para cima durante a caminhada, corrida e saltos. Quando esse tendão sofre microlesões repetitivas sem tempo adequado para cicatrização, desenvolve-se um processo inflamatório chamado tendinite.

Na verdade, o termo mais correto é tendinopatia de Aquiles. Isso porque, em muitos casos, não há apenas inflamação. Ocorre também degeneração das fibras de colágeno que formam o tendão. Essas fibras desorganizadas enfraquecem a estrutura e aumentam o risco de ruptura. Por isso, tratar precocemente é fundamental para evitar a progressão da lesão.

A tendinopatia resulta de um desequilíbrio entre carga e capacidade de suporte. Quando exigimos do tendão mais do que ele está preparado para aguentar naquele momento, surgem as microlesões. Fatores como aumento súbito de volume de treino, corrida em terrenos inclinados, calçados inadequados, sobrepeso e envelhecimento aumentam o risco de desenvolver a lesão.

Os dois tipos de tendinite de Aquiles

Tendinite não insercional (corpo do tendão)

Essa forma acomete a parte central do tendão, geralmente entre 2 a 6 cm acima do calcanhar. Essa região é chamada de zona crítica porque tem menor vascularização. Ou seja, recebe menos sangue e oxigênio, o que torna a cicatrização mais lenta. Por isso, o tratamento costuma ser mais demorado nesse tipo.

O paciente nota espessamento visível do tendão nessa região. Ao palpar, sinto um tendão endurecido e doloroso. Em casos mais avançados, aparecem nódulos dentro do tendão, que são áreas de degeneração. A dor piora com atividades de impacto e melhora com repouso, especialmente no início do quadro.

Tendinite insercional (inserção no calcâneo)

Aqui a lesão ocorre exatamente no ponto onde o tendão se conecta ao osso do calcanhar. Geralmente está associada a outras alterações como esporão posterior do calcâneo (deformidade de Haglund) e bursite retro calcânea. Essas estruturas ósseas proeminentes friccionam o tendão constantemente, perpetuando a inflamação.

Nesse tipo, a dor é bem localizada na parte posterior do calcanhar. Piora ao usar calçados fechados que comprimem a região e ao subir em superfícies inclinadas. O tratamento conservador funciona bem, mas em alguns casos a remoção cirúrgica do esporão ósseo é necessária quando as medidas clínicas falham.

Como a dor evolui: reconheça os sinais

No começo, a dor aparece apenas no início da atividade física. Após alguns minutos de aquecimento, o tendão “esquenta” e a dor melhora ou desaparece. O paciente consegue terminar o treino sem grandes problemas. Volta a doer após a atividade, especialmente à noite e nas primeiras pisadas do dia seguinte ao acordar.

Esse é o momento ideal para procurar tratamento. Muita gente ignora essa dor inicial achando que é apenas cansaço muscular. No entanto, é nessa fase que o tratamento conservador funciona melhor e mais rápido. Basta ajustar o treino, fortalecer a musculatura e fazer fisioterapia para resolver o problema em 4 a 8 semanas.

Fase intermediária

Com a evolução, a dor passa a estar presente durante toda a atividade física. O paciente não consegue mais “aquecer” o tendão e fazer a dor passar. Precisa reduzir a intensidade do treino ou até interrompê-lo. A dor também aparece em atividades simples como subir escadas e andar em terrenos irregulares.

Nessa fase, o tendão já apresenta alterações estruturais visíveis no ultrassom ou ressonância. O espessamento é evidente e a força muscular da panturrilha diminui. O tratamento ainda é conservador, mas exige mais tempo e dedicação. Fisioterapia, ondas de choque e modificação completa das atividades são necessárias.

Fase avançada

Na forma mais grave, a dor torna-se constante, mesmo em repouso. O paciente tem dificuldade para caminhar e não consegue ficar na ponta dos pés. O tendão fica muito espesso e rígido. Há risco real de ruptura completa a qualquer momento, o que seria uma emergência cirúrgica.

Felizmente, poucos casos chegam a esse ponto. Quando acontece, geralmente é porque o paciente ignorou os sinais por meses ou até anos. Por isso, insisto sempre: ao primeiro sinal de dor persistente no tendão de Aquiles, procure um ortopedista especialista em pé e tornozelo.

Como faço o diagnóstico

A história clínica é fundamental. Pergunto sobre o padrão da dor, quando começou, o que piora e o que alivia. Investigo também mudanças recentes no treino, tipo de calçado usado e presença de doenças como diabetes que afetam a qualidade do tendão. Ao exame físico, palpo todo o trajeto do tendão procurando por áreas de espessamento e dor localizada.

Testo a força muscular pedindo ao paciente para subir repetidamente na ponta dos pés. Na tendinite, esse movimento gera dor e o paciente tem dificuldade. Avalio também a flexibilidade da panturrilha, pois o encurtamento muscular sobrecarrega o tendão. Solicito radiografia lateral do tornozelo para identificar calcificações no tendão ou esporões no calcâneo.

O ultrassom é meu exame de escolha para avaliar a estrutura do tendão. Mostra espessamento, áreas de degeneração, neovascularização e presença de rupturas parciais. A ressonância magnética complementa quando há dúvida diagnóstica ou suspeita de lesões associadas. Segundo protocolos da Mayo Clinic, essa abordagem diagnóstica é a mais adequada.

O que a ciência diz sobre o tratamento

Uma revisão sistemática publicada na revista Cureus em 2022 avaliou a eficácia da terapia por ondas de choque para tendinite de Aquiles. Os autores analisaram 6 estudos randomizados e concluíram que ondas de choque associadas a exercícios excêntricos foram superiores aos exercícios isolados. Houve melhora significativa na dor e na função aos 3 e 6 meses de seguimento.

Outro estudo randomizado publicado no Journal of Bone and Joint Surgery em 2021 comparou ondas de choque mais exercícios excêntricos versus exercícios excêntricos isolados para tendinite insercional. 

Após 24 semanas, ambos os grupos melhoraram significativamente, mas não houve diferença estatística entre eles. Isso mostra que os exercícios excêntricos são a base do tratamento.

Opções de tratamento para tendinite de Aquiles

O primeiro passo é reduzir ou suspender temporariamente as atividades que causam dor. Isso não significa repouso absoluto. Substituir a corrida por atividades de menor impacto como natação, ciclismo ou elíptico mantém o condicionamento sem sobrecarregar o tendão. Essa modificação deve durar de 4 a 8 semanas dependendo da gravidade.

Usar calcanheiras de silicone ou palmilhas que elevam discretamente o calcanhar (5-10mm) reduz a tensão sobre o tendão durante a caminhada. Evitar terrenos muito inclinados, escadas excessivas e atividades que exijam saltos também faz parte do tratamento inicial. Gelo local por 15-20 minutos após atividades ajuda no controle da dor.

Fisioterapia e exercícios excêntricos

Os exercícios excêntricos são o pilar do tratamento conservador. O protocolo de Alfredson é o mais estudado e consiste em subir na ponta dos pés e descer lentamente até o calcanhar ficar abaixo do nível do degrau. Realizar 3 séries de 15 repetições, duas vezes ao dia, por 12 semanas. Esse exercício estimula a reorganização das fibras de colágeno e fortalece o tendão.

A fisioterapia complementa com alongamento da panturrilha, fortalecimento dos músculos intrínsecos do pé e exercícios de propriocepção. Técnicas como laser de baixa potência, ultrassom terapêutico e dry needling aceleram a cicatrização. O fisioterapeuta também corrige padrões de movimento inadequados que contribuem para a sobrecarga do tendão.

Terapia por ondas de choque

As ondas de choque são ondas acústicas de alta energia que estimulam a regeneração tecidual. Realizo o procedimento no consultório, sem necessidade de anestesia em casos leves. São necessárias geralmente 3 a 5 sessões semanais. A energia das ondas provoca microtraumas controlados que aumentam o fluxo sanguíneo e ativam células de reparação.

Os resultados aparecem de forma gradual ao longo de 8 a 12 semanas após o término das sessões. A taxa de sucesso varia de 60 a 80% conforme a literatura. Pacientes que não melhoram com fisioterapia isolada após 3 meses são os melhores candidatos para essa terapia. Uso ondas de choque especialmente na tendinite não insercional, onde a vascularização é menor.

Quando a cirurgia está indicada

A cirurgia fica reservada para casos refratários ao tratamento conservador bem conduzido por pelo menos 6 meses. O procedimento consiste em remover as áreas de tecido degenerado do tendão e estimular a cicatrização. Na tendinite insercional, removo também o esporão ósseo quando presente. Realizo por via aberta ou artroscópica dependendo do caso.

A recuperação cirúrgica leva de 4 a 6 meses até retorno completo às atividades esportivas. Durante esse período, o paciente usa bota imobilizadora por 2 a 4 semanas, seguida de fisioterapia intensiva. A taxa de sucesso cirúrgico é alta, acima de 85%, mas a cirurgia sempre é a última opção após esgotadas todas as medidas conservadoras.

Tenha ajuda especializada

A tendinite do tendão de Aquiles é uma lesão por sobrecarga que responde bem ao tratamento conservador quando iniciado precocemente. Exercícios excêntricos, fisioterapia e ondas de choque são eficazes em até 75% dos casos. Ignorar os sintomas iniciais leva à cronificação e ao risco de ruptura tendínea.

O sucesso do tratamento depende da adesão do paciente ao protocolo de exercícios e da paciência para aguardar a cicatrização do tendão. Voltar ao esporte antes da hora é o erro mais comum e aumenta o risco de recorrência. Portanto, siga rigorosamente as orientações médicas e de fisioterapia.

Se você tem dor persistente atrás do calcanhar, agende uma consulta. Atendo em São Paulo e ofereço avaliação completa com ultrassom no consultório e plano de tratamento individualizado. Entre em contato pelo WhatsApp.

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Dra. Paulo Zugliani
CRM 67141/SP
“Humanização no tratamento da dor”

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